quarta-feira

Feminina Cachaça


O espelho, agora, é um estrangeiro. O tempo, ao reviver o sabor de um passado pouco distante, faz com que a antiga chama desbote. Olho para os vestígios desse brilho e já não procuro o fogo, mas a compreensão do que restou nas cinzas.

O ímpeto da carne queixa-se da falta de força, mas minha alma não renega o caminho; pelo contrário, ela reclama a posse de ser quem sempre fui, insurgindo-se contra o que o "agora" tenta selecionar ou apagar. Ah, se eu pudesse habitar plenamente o que foi deixado! Resgatar no espelho o que o presente desfaz, pois o que em mim desabrocha hoje já não me traz paz.

Tu és cruel, passado, pois nos deixas para trás. Mas, se a carne reclama da força, é porque a alma já aprendeu que não precisa mais carregar o peso de "parecer", mas sim a glória de "ser". E assim, em meio às trocas entre o novo e o que fenece, o corpo, em sua química, por vezes te obedece. Tu, tempo, em fluxos de hormônios e neurotransmissores, aplacas o vazio e disfarças velhas dores. Promoves o bem-estar, o riso, o relaxar... fazendo o peito, enfim, reencontrar a si mesmo em meio ao teu fluxo.

Quer saber?!

Ah, se eu pudesse!
Esconder a minha vida dos que a vigiam...
Ah, se eu pudesse!
Estar aqui, ali, acolá, sem que ninguém soubesse — sabes?

Ah, se eu pudesse!
Mas o culpado desse desatino, dessa audácia e graça,
é o feitiço da "marvada", a feminina cachaça:
Ah, se eu pudesse!

Chico Carlos 


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