Como a omissão coletiva e a busca pelo poder moldam a realidade contemporânea, e o chamado urgente para despertarmos a nossa consciência ética.
Não é preciso ser profeta ou visionário para enxergar o óbvio: o diário do mundo está escancarado na nossa cara, escrito nas páginas da nossa própria omissão. Cruzamos as estradas da vida na boléia do destino, feito viajantes que, às vezes, esquecem que também são o fio que corta e a navalha que fere.
Tentamos levar a vida com leveza, tirando versos da cartola, mas a verdade é que a viola chora em um mundo que parece ter desaprendido o amor. Como cantar o belo se a desigualdade rima perfeitamente com a hipocrisia? Não há poesia que console o coração de quem vê a natureza sufocada pela fumaça, a criatura morrendo e o planeta gemendo de dor.
Enquanto o desespero brilha no olhar de uma criança, a humanidade escolhe fechar os olhos e se anestesiar diante de telas que vendem fantasias e destilam violência. O crime aumenta na mesma proporção in que cresce a fome pelo poder. E, no chão da realidade nua e crua, o boi com sede ainda bebe lama, porque a barriga vazia não deixa ninguém dormir em paz.
Diante de tudo isso, resta uma verdade incômoda, mas necessária: eu posso não ser o dono deste mundo..., mas carrego a minha parcela de culpa. Afinal, se sou filho do Dono, a casa também é minha obrigação. Que a nossa cegueira dê lugar à ação, antes que o chão seque de vez.
Essa reflexão poética nos conduz diretamente a um questionamento profundo sobre a mente humana: afinal, diante do querer, do desejar e do possuir, até que ponto a nossa consciência e identidade individual atua como mediadora racional da realidade? O cenário de omissão e anestesia descrito na crônica revela os efeitos de um comportamento egocêntrico, que consiste em colocar-se constantemente como o centro das atenções e priorizar excessivamente as próprias necessidades, opiniões e desejos, ignorando ou minimizando o ponto de vista alheio.
O conflito humano exposto no poema reflete com precisão a segunda tópica da teoria psicanalítica de Sigmund Freud, demonstrando que a nossa psique vive em um cabo de guerra constante entre três forças fundamentais:
1. O ID (O Instinto Bruto)
Função: Busca a gratificação imediata através do princípio do prazer, sem filtros morais ou lógicos.
No mundo real: Manifesta-se na fome pelo poder, no consumo desenfreado e no egoísmo que sufoca a natureza. O Id ignora o futuro; ele foca apenas na urgência de acumular e satisfazer seus impulsos no presente.
2. O EGO (O Mediador Realista)
Função: Representa a nossa consciência prática e identidade individual, operando como um equilibrista que avalia a realidade externa.
No mundo real: Tem falhado em sua missão equilibradora. Diante da dor nua e crua do mundo, o Ego capitula e busca refúgio na alienação, anestesiando-se diante das telas digitais que vendem fantasias.
3. O SUPEREGO (O Juiz Moral)
Função: Incorpora as regras sociais, os valores éticos e o sentimento de culpa.
No mundo real: É a voz de responsabilidade que desperta nos versos finais da crônica. É a instância que nos recorda que a omissão gera consequências e que, na condição de filhos do Dono, a preservação da casa é nossa obrigação.
A Realidade Atual
Ao analisar esse panorama, compreende-se a extensão da tese freudiana de que o Ego não é mestre em sua própria casa. Na sociedade contemporânea, onde o apelo visual e mercadológico bombardeia o Id constantemente, as decisões que julgamos estritamente racionais são, em grande parte, meras racionalizações criadas para camuflar o desejo de posse.
Quando o "ter" atropela a razão, o resultado inevitável é a ansiedade e a cegueira coletiva. Portanto, a integração entre a poesia e a psicanálise deixa um alerta claro: é preciso que a nossa instância consciente desperte da anestesia tecnológica e assuma a responsabilidade ética por nossas omissões, antes que o chão da realidade seque por completo.
Chico Carlos
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